quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Marcos deixa legado e “causos” à nação palmeirense




O antigo, contemporâneo e mítico arqueiro do Palmeiras, o eterno “São Marcos”, será sempre lembrado no clube e também por todo o Brasil pela sua contagiante alegria, seu jeito debochado e também pelos muitos “causos” confidenciados à imprensa. Peço licença aos colegas para também contar meu “causo” com o goleiro. Ao estilo Nelson Rodrigues, sem a pretensão deste brilhante escritor, mas no que se refere à linguagem e à estrutura da crônica e ao estilo “Marcos”, no que se refere ao prosaico e à forma de “contar causos”.


Deixarei de lado a lista de conquistas e glórias do atleta. Este texto é um pouco longo, prosaico e apenas casual, não tem a obrigação de informar, mas descontrair e relata a minha admiração pelo maior ídolo recente da história do Palmeiras em um momento e local inusitado.


Minha história com o “Santo” aconteceu exatamente no dia 20 de dezembro de 1999, poucos dias depois de o goleiro do Palmeiras ter retornado da cidade de Tóquio, após derrota no Mundial de Clubes por 1 a 0 contra a equipe do Manchester United, da Inglaterra. Naquela ocasião, o arqueiro palestrino foi responsabilizado por grande parte da imprensa esportiva pela falha que resultou no gol do rival (depois assumida repetidamente por ele, mas que pouco importa aos palmeirenses de coração).


Na época, eu tinha 13 anos quando viajava de férias escolares com minha família. Estávamos indo para a cidade de Marília, no interior paulista, próximo à cidade natal do Santo, em Oriente. Meu pai e minha mãe decidiram parar em um tradicional posto de gasolina no Km 198 da rodovia Castello Branco.


Apertado para ir ao banheiro, saí em disparada assim que estacionamos. Eu me lembro que o banheiro estava cheio, pois era véspera do Natal. Tive de fazer xixi em um mictório no cantinho do banheiro, depois de muito esperar um lugar ficar vago. Nota: homens geralmente possuem uma estranha e preconceituosa mania, exclusivamente no mictório, de olhar para o lado com a preocupação de que o ‘colega’ não fique bisbilhotando “seu documento”. Pois é, caro amigo, quando olhei para ver quem poderia estar bisbilhotando “meu documento”, percebi a presença de um cara alto e careca ao meu lado, no mictório. “É o Marcos!”, disse, ridiculamente, em voz alta, típico de um adolescente. Logo me contive. Não consegui dizer mais nenhuma palavra. Ele olhou assustado, claro.


Fechei a braguilha da calça e lavei as mãos em tempo recorde. Nem mesmo o próprio Santo executaria aquelas ações em campo com tanta agilidade. Logo encontrei meu pai, que não gosta nenhum um pouco de futebol, do lado de fora do banheiro. Eu disse a ele: “Pai, você não sabe, mas o Marcos estava fazendo xixi ao meu lado”. Meu pai é um homem sério, de poucas palavras, mas de um senso de humor fugaz. Ele comentou: “E você não balançou para ele?”, sorriu. Na hora não me contive e caí na risada, enquanto procurava caneta e papel para o autógrafo.


Estranhamente, ninguém o havia reconhecido - mesmo no banheiro e no posto - e imagine que ele era um dos atletas mais importantes do país naquele momento. Minha mãe, mais desinibida que eu e meu pai juntos, tão logo providenciou o material – um verso em capa dura de um bloquinho de anotações do ano de 1999 - e aguardou a saída do ‘Santo mijador ou milagreiro’ do banheiro.


Quando ele saiu, eu não conseguia dizer uma palavra sequer, nem ao menos conseguia abordá-lo para pedir um autógrafo. Naquele momento tudo ficou sem som e só percebia minha mãe gesticulando e, em leitura labial, dizendo: “Vai lá, é sua chance!”. Senti como se tivesse que defender o pênalti do Marcelinho Carioca, nas semifinais da Copa Libertadores de 2000. Minha mãe, então, - que não sentia o peso de bater o penal - pediu o autógrafo ao Santo.


Com uma simpatia única, Marcos me disse exatamente com essas palavras: “Como você se chama? Vou escrever aqui [no bloquinho] para o meu amigo e fã Ricardo: Um grande abraço do goleiro Marcos do Palmeiras. Está bom?”. Neste momento eu continuava sem dizer nada e só balançava a cabeça afirmativamente. Indiretamente, o arqueiro sequer imaginaria que estava me ajudando a como lidar em situação de grande êxtase e a vencer minha timidez. Em velozes 20 segundos, São Marcos havia me dado uma aula de simplicidade, respeito e exemplo de personalidade.


Como jornalista, já o reencontrei e superei meu ‘trauma’, embora tenha o sonho de ainda entrevistá-lo. Jamais me esquecerei deste momento infanto-juvenil e do instante em que ‘tive a honra’ de fazer xixi ao lado do meu grande ídolo e heroi esportivo. Hoje me vi procurando aquele bloquinho de anotações quase em vão, quando percebi que as memórias e os gestos nos tornam seres humanos cada vez mais especiais e formidáveis, como Marcos sempre será – imperdível e inesquecível. Obrigado, Marcos Roberto Silveira dos Reis pelos “Santos ensinamentos” ainda que à beira do mictório.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

“Todo músico precisa descobrir a alma do poeta”, revela maestro


Ricardo Datrino

Colaboração para o Diário de S. Paulo

Aos 71 anos de idade, o aclamado maestro e pianista, João Carlos Martins, é um exemplo de superação e dedicação ao trabalho artístico. Martins tem uma trajetória singular ao ter passado por diversos problemas de saúde, entre eles uma lesão em um nervo da mão direita – em um ataque sofrido em assalto na Bulgária, quando realizava um concerto - e um tumor na mão esquerda, que o obrigaram a reencontrar uma maneira nova de entender a música. Em entrevista ao Diário de S. Paulo, o maestro destaca a importância dos trabalhos sociais desenvolvidos, a escolha de sua biografia como enredo da escola de Samba Vai-Vai e do filme sobre sua história de vida que deverá estrear em 2012.

Como tem sido o trabalho de cunho social com o objetivo de garimpar possíveis talentos musicais?

Quando recomecei a vida, com 64 anos, como maestro, decidi procurar excelência musical aliada à responsabilidade social. Com isso, comecei um trabalho com 45 jovens de 16 anos da periferia procurando sempre pessoas interessadas em música. Neste período, ao mesmo tempo, a Orquestra Filarmônica Bachiana se apresentava em inúmeros lugares em São Paulo. Acabei, aos poucos, formando uma orquestra jovem de meninos. Hoje, o projeto chega a 1,5 mil crianças estudando música. Enquanto isso, fomos acompanhando também a evolução da Orquestra Bachiana Filarmônica, que estava em alta, e foi a primeira orquestra brasileira a se apresentar no palco do Carnegie Hall, em Nova York. Mas vendo a evolução de ambas as orquestras, já no ano passado, os jovens ficaram tão bons que decidi juntar a orquestra profissional e a Orquestra Filarmônica SESI SP, formada pelos jovens. Em 19 de setembro deste ano foi nosso auge, quando a orquestra única abriu a temporada em Lincoln Center, na cidade de Nova York, para 2,8 mil pessoas e também realizou a abertura da Conferência das Organizações das Nações Unidas, também em Nova York. Foi um momento mágico e fomos muito aplaudidos. Uma homenagem em Nova York é muito expressiva e emocionante para qualquer artista de qualquer lugar do mundo.

O senhor desenvolve ainda outras atividades...

Criei recentemente o projeto “O Brasil é uma Orquestra”. Começo escolhendo 45 jovens em cada estado brasileiro, baseado no exemplo da minha orquestra. No final de um ano, os 26 estados brasileiros terão 45 jovens tocando a mesma peça regida pela internet simultaneamente em um telão. Daqui há 10 anos estarei com 80 anos e perceberemos que cerca de mil orquestras serão formadas no país. Precisamos criar esse estímulo tendo em vista os países emergentes. Dentre esses países, a China ganhou a liderança no desenvolvimento e massificação cultural. Se os outros países emergentes não acompanharem o que a China está fazendo haverá um abismo. Os diamantes que tocaram comigo estão prontos para tocar em qualquer orquestra do mundo e isso deve ser estimulado.

Qual a maior dificuldade ao “talhar o diamante”?

Você deve chegar para a criança e perguntar quanto tempo ela pode estudar por dia. Qualquer período de tempo que ela disser está bom para o músico. Se ele disser 20 minutos, está bom. A partir daí, criamos uma disciplina e em nenhum dia essa criança estudará menos ou mais do que os 20 minutos estabelecidos por ela. Logo, ela vai dizer que quer aumentar esse tempo para 40 minutos, por exemplo. O estímulo é desenvolvido pela paixão ao que se faz. Hoje, todos meus alunos estudam no mínimo 3h50 e no máximo 4h10. O primeiro passo é criar disciplina, o segundo passo é criar a alma do poeta. E isso se consegue apenas com amor à música. Neste ano, chegarei aos 200 concertos e sempre o que penso é em estimular o espírito do artista.

O Jean William [jovem tenor paulista] descoberto pelo maestro João Carlos seria esse talento que tem a alma alimentada...

Sim. No dia 21 de dezembro, levarei esse jovem talento para começar a estudar no Scala de Milão, na Itália. Ele deverá fazer história no Brasil e ser um dos sucessores naturais do Pavarotti. Brinco com ele, mas peço calma. Tenho também um “diamante” estudando no New York University, que toca violoncelo, e outros mais. Isso se chama momento certo na hora certa. O cantor Jean William, que vai para o Scala de Milão, ganhou uma bolsa de U$ 42 mil por ano para estudar e torço pelo sucesso e os sonhos dele.

Como o samba enredo da Vai-Vai em sua homenagem tem impactado na vida do maestro?

Quando lancei o Jean William cantando ópera junto à bateria da Vai-Vai, apareceu a ideia do samba enredo da escola para o ano que vem. Em evento que reuniu o atual ministro da Cultura [Juca Ferreira], comentei sobre a escola fazer um enredo baseado na música clássica. Naquele instante, percebi que a expressão musical está alcançando a democracia dela. Ela está conseguindo atingir todos os segmentos. Quando ouço o samba unido à música clássica vejo que algo está certo. O trabalho é junto das comunidades carentes e morros e a música passa por todas as classes.

Qual a sua análise sobre os trabalhos sociais que envolvem música erudita na comunidade de Heliópolis?

Tenho muito respeito pelo trabalho realizado em Heliópolis. É maravilhoso, mas quando a orquestra sinfônica viaja trata-se de uma orquestra em Heliópolis e não da comunidade porque há vários profissionais dentre os jovens que estão iniciando. O projeto é bárbaro. Eles têm uma sede, educam os garotos, a orquestra possui músicos da favela, mas não são 70 músicos apenas da favela.

Qual ganho a música teve com seus trabalhos junto aos internos da antiga FEBEM, atual Fundação Casa?

Há uma cena em um vídeo que gravei que me emociona muito, de um jovem que recebeu a liberdade em uma segunda-feira e disse ao pai que ficaria preso mais 3 dias para poder dizer obrigado pela música ter transformado sua vida. É emocionante. Trabalhei com sete diamantes da FEBEM, que já saíram e no Natal passado mandaram cartas para a Casa agradecendo pela dedicação. É a possibilidade da inclusão pela música.

Em breve um filme será lançado sobre a sua biografia...

Vou ficar bonito mesmo com 71 anos, já que o Rodrigo Santoro irá fazer um filme interpretando a minha vida. Será uma produção norte-americana do diretor Bruno Barreto, mas não há data definida para estreia. Ele irá contar minha vida dos 20 aos 63 anos. As filmagens devem começar em outubro de 2011. Embora eu seja suspeito para dizer que será muito bom (risos).

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Eleitor não é "máquina"


As eleições presidenciais deste ano acontecem no dia 3 de outubro, mas uma sucessão de fatos extra-eleitorais "esquentam" o clima já acirrado que existe entre os "prediletos" pré-candidatos José Serra (PSDB) e Dilma Roussef (PT). Nessa semana, o jornalista Eugênio Butti trouxe à tona um importante aspecto da disputa eleitoral à presidência do País: a bipolarização do debate por parte da mídia, intelectuais e até mesmo entre os eleitores de maneira geral.

Neste caso, o que tem despertado curiosidade, segundo a crítica feita pelo jornalista, é a capacidade restrita de parte do eleitorado de pensar de maneira binária - assim como age os sistemas processuais dos computadores. O intelectual critica o posicionamento dessa parcela do eleitorado chegando a classificá-la como resultante de um olhar maniqueísta, motivado também pela manipulação da imprensa e pela incapacidade de perceber os mecanismos de controle dos meios multimidiáticos.


Assim sendo, diante das composições e alianças partidárias que observamos, vale lembrar que existem pelo menos outros 12 políticos que demonstram interesse em assumir a cadeira da República. Neste artigo, proponho ao leitor buscar informações sobre os candidatos e o que cada um pode apresentar em termos de propostas políticas, ou até mesmo simplesmente conhecê-los.

Abaixo segue a lista de alguns dos pré-candidatos:

Américo Souza (PSL)
Ciro Gomes (PSB)
Ivan Pinheiro (PCB)
José Maria de Almeida (PSTU)
José Maria Eymael (PSDC)
Levy Fidélix (PRTB)
Marina Silva (PV)
Mario Oliveira (PT do B)
Oscar Silva (PHS)
Plínio de Arruda Sampaio (PSOL)
Roberto Requião (PMDB)
Rui Costa Pimenta (PCO)

Desta maneira, enquanto se discute em grande parte da imprensa a diminuição da margem de intenção de votos entre Serra e Dilma, gastos exorbitantes com elaboração de campanhas e envolvimentos de sindicatos no processo eleitoral (que não deixa de ser um assunto relevante, pertinente e que deve ser fiscalizado sim pela imprensa) seria primordial que o eleitor avaliasse com mais criticidade e acurácia a possibilidade de poder votar em outros candidatos se assim quiser.


Como a democracia permite escolhas, é importante que o cidadão busque informações que a ele são colocadas. Dessa forma, é provável que a nação tenha uma visão mais abrangente e dialética a respeito de como pode fazer valer sua cidadania bem como medir com mais clareza o seu poder de senso crítico. Aliás, as pessoas pensam já as máquinas agem em função da programação realizada pelos seres humanos. Nesse ponto, o eleitor não pode ser massa de manobra e deve optar pela autonomia e liberdade de expressão.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Perfil

ENTREVISTA

Renê de Freitas Marques
(goleiro e capitão do Grêmio Recreativo Barueri)

“O Barueri não para, o Barueri luta até o fim e passa por uma semana maravilhosa de trabalho. Temos tudo para fechar com chave de ouro, o bicampeonato”

Ricardo Datrino
(ricardodatrino@yahoo.com.br)

Renê fala com exclusividade sobre o jogo de volta que irá decidir quem será o campeão do interior paulista de 2009. No jogo de ida, realizado em Campinas, a Ponte Preta venceu por 2 a 0. A equipe do Barueri precisa vencer pela diferença de dois gols para conquistar o caneco. A briga promete ser forte, mas o capitão Renê está seguro que erguerá pela segunda vez a taça. Em 2008, o Abelha já conseguiu o feito e o ‘guarda-metas’ barueriense pretende ajudar o time em partida que será disputada neste sábado, às 18h30, no estádio Arena Barueri. O jogo será apitado por Rodrigo Braghetto, que terá como auxiliares Márcio Luiz Augusto e Marcos Joel Alves. Nesta entrevista, Renê relata momentos em que teve que comer comida destinados à presos para não morrer de fome, da falta de reconhecimento ao seu trabalho, do apoio da família para superar dificuldades e como fez para driblar problemas e se tornar vitorioso profissionalmente.

O que o Barueri deve fazer para reverter a vantagem que a Ponte Preta tem de dois gols, podendo perder por até um gol de diferença?

Primeiramente fazer os dois gols de diferença e não tomar para não dificultar mais ainda a situação. Mas para fazer dois gols temos que ter a tranquilidade de fazer o primeiro. Se sairmos, desesperados acabaremos sendo surpreendidos e teremos que aumentar a vantagem depois. Nossa equipe é equilibrada, serena, já viveu numa situação dessa, e conseguiu reverter. Acho que conseguiremos mais uma vez.

A vantagem do Barueri seria o empate, mas como a equipe perdeu a partida de ida por 2 a 0 será necessário arrancar a vitória por também dois gols...

Isso. A vantagem é nossa pelo critério e tivemos numa situação parecida contra o Mirassol. Na ocasião perdemos em casa e tínhamos que fazer dois gols. Conseguimos, naquela noite inesquecível, e agora esperamos repetir, dentro de casa, o bom resultado com o apoio de nosso torcedor, para que possamos nos consagrar bicampeão.

Anteontem foi escolhido o árbitro que irá apitar a segunda final. O que você achou da decisão da Federação Paulista em escalar o árbitro Roberto Braghetto para a final?

Ontem, perguntávamos quem seria o arbitro e ficamos muito felizes de saber que é o Roberto. Ele é um baita árbitro, de muito gabarito.

Você e a equipe não têm problemas com ele?

Não temos problemas com nenhum árbitro, mas sabemos que ele é muito experiente. Esperamos que ele esteja numa tarde inspirada porque senão ele pode atrapalhar todo um trabalho. O Roberto é bem experiente. Ele é bem capaz e acredito que nem irá aparecer no jogo. Quem deve aparecer são os jogadores.

O Pedrão é a esperança do time para reverter a situação?

Pedrão é o artilheiro e sempre ajudou muito nossa equipe. Ele é um jogador fantástico que sabe finalizar muito bem. Ele em um dos jogos que disputamos teve a infelicidade de perder um pênalti, mas na verdade não digo que ele perdeu e sim que o goleiro defendeu. Ele é um cara que tem muito crédito. Acredito e falo que ele [Pedrão] tem estrela e cresce em decisões. Sábado não será diferente.

O fator casa será determinante para uma vitória?

Apesar de não ter feito uma boa campanha no campeonato paulista dentro de casa, nossas melhores campanhas foram fora, nossa equipe na hora decisiva cresce muito e, com a corda no pescoço, consegue desatar o nó e se salvar. Esperamos que agora não seja diferente. Esperamos conseguir os dois gols de vantagem e será uma partida muito difícil. Esperamos que torcedor que vá ao estádio para nos incentivar. Certamente ele verá um grande espetáculo.

Já houve um acordo da diretoria, comissão técnica e atletas sobre a divisão do prêmio de R$ 250 mil caso o Barueri consiga o título? O que será feio com o dinheiro?

O Barueri no campeonato, no começo do paulista, já tinha acordado os valores para chegar entre os quatro melhores classificados. Já havia um valor por vitórias. Esse valor será repassado a todos que participam do elenco e comissão técnica, é justo para quem trabalhou que seja feita a divisão justa.

Em entrevista que o Pedrão concedeu ao Diário da Região ele disse que a meta era ficar entre os quatro primeiros do paulista ou entre os oito para disputar a taça do interior. Esse era o objetivo do GRB neste campeonato paulista?

O objetivo era ficar entre os quatro uma vez que fomos campeões do interior no ano passado. Mantivemos uma base muito boa. Acreditávamos que podíamos ter chego. Perdemos pontos que não eram esperados. Tinham equipes que não dispunham da mesma qualidade técnica que nós, mas vacilamos. Nosso segundo objetivo foi classificar para o interior e buscar o bicampeonato. Chegamos na situação e sábado vamos ver se alcançaremos esse segundo objetivo.

Mesmo com as dificuldades e a desvantagem não podemos negar que o Barueri está próximo de conquistar a taça de campeão do interior paulista. Se o fato se concretizar, como será a sensação de levantar a taça pela segunda vez consecutiva?

É festa, é título. Não importa qual o título estamos disputando. Vale medalha, vale troféu, status e premiação. Esse é o nosso pensamento e vamos em busca disso até quando o nosso coração bater e tivermos chance. O Barueri não pára, o Barueri luta até o fim e está tendo uma semana maravilhosa de trabalho. Temos tudo para fechar com chave de ouro que é o bicampeonato.

Sabemos que é importante para um atleta a conquista de campeão do interior, mas fica um ‘gostinho’ de fracasso não ter conseguido a classificação para as fases finais do paulista?

O que eu conversei com o pessoal e o Estevan [Soares], que chegou no meio da competição, contra o Mirassol - quando fomos derrotados em casa e contra o Paulista também perdemos - é que eles [o grupo] achou que o time estava muito abaixo do rendimento. Falei com ele [Estevan] e disse a ele que o grupo estava preparado para ficar entre os quatro e não para disputar mais uma vez o torneio do interior. No entanto, conseguimos retomar o trabalho e a confiança para buscar o título e respeitar o título do interior. Lógico que pensávamos que tínhamos grandes chances de ficar entre os quatro, mas desperdiçamos as chances e sabemos que ela escapou entre os dedos. Perdemos pontos para equipes que brigaram pelo rebaixamento.

Como está sendo o seu relacionamento, como liderança do grupo, com o Estevan Soares? E o grupo, como o recebeu?

O Estevan tem o carinho de todos no grupo. Todo mundo gosta muito não só dele como do Gerson Sodré, auxiliar, o Lino, preparador físico, e do Ronaldo, preparador de goleiro. Ele abre espaço para darmos nossa opinião. É uma relação muito boa, de igualdade mesmo. Claro que a palavra final é dele, mas é uma relação sadia que tem tudo para dar certo.

Como foi o início da sua trajetória profissional? Conte um pouco.

É até engraçado. Eu estava, ontem, brincando na faculdade com colegas, no curso de marketing, sobre uma matéria que eu tive e que dizia sobre fracasso e fugas. Meu fracasso foi o meu sucesso. Eu era zagueiro e fui fazer um teste no Bragantino. No ônibus, na ida do caminho, o comentário era que quem era zagueiro estava praticamente fora da peneira e isso porque a zaga na época era da seleção brasileira. Eram atletas da categoria de base e os dois zagueiros eram do Bragantino. Chegou um momento em que o pessoal chamou os jogadores e perguntou: “Quem é o René”. Ninguém falou nada aí eu disse: “Sou eu”. O treinador do Bragantino perguntou: “Você é goleiro ou zagueiro?”. Não ia falar que eu era zagueiro nunca, falei que era goleiro (risos). Foi aí que veio a minha fuga. Ele [treinador] disse que os goleiros deviam ir para outro lado (risos) e fui. Eu estava sem uniforme de goleiro e sem nada. Entre 200, passaram apenas seis atletas, dentre eles, eu. Consegui pela estatura e postura. No Bragantino, mandaram retornar depois de um tempo. Voltei para São Paulo, num time amador onde treinava e disse que, a partir daquela data, em que passei no teste, eu devia ser goleiro. Fui aprendendo e aprendendo até que tive condições de chegar ao Araçatuba, o AIA. Depois de seis meses o São Paulo acabou me comprando como goleiro e estou aí ate hoje, vivendo o meu melhor momento.

Você acredita que o Barueri tem chances de chegar às finais do Brasileiro?

Nossa equipe está mantendo uma boa base e estão vindo reforços bons e de qualidade.

Recentemente chegou o André Luís...

Isso. O André Luís, Xandão, e outros também estão vindo. Temos grandes chances de surpreender neste brasileiro. Será o primeiro ano do Barueri. É um ano onde temos que nos adaptar porque a série A é muito difícil e diferente. Temos que ter a humildade de reconhecer que há também mais de 19 adversários de muita qualidade e que eles vão respeitar a nossa equipe que conquistou, em oito anos, muitas vitórias e conquistas. É difícil ver uma equipe assim. Nossa meta é buscar a vaga na copa sul-americana.

Foram metas traçadas...

Isso já está bem definido. Já foi acordado na reapresentação dos atletas no início do ano. Em conversas com o Walter [Jorqueira Sanches] presidente do Barueri e a diretoria toda. Foram traçadas metas para o Paulista e o Brasileiro. O projeto, em 2009, é ficar entre os doze melhores classificados. Ficando entre os doze, estamos praticamente fora da zona de rebaixamento. Com isso, estaremos também beliscando uma vaga na sul-americana.

Em 2008, você ganhou o prêmio de melhor goleiro da Série B do Brasileirão. Para repetir a dose o que você irá fazer? Qual fundamento ainda pode ser melhorado?

Depois do prêmio que recebi, comecei a ficar mais conhecido nacionalmente e a cobrança aumentou. Estou trabalhando dobrado e, desde janeiro, estou me aprimorando não só para esse ano. Estou no momento ideal para começar a série A. Me preparei não somente esse ano para a competição, mas como em toda minha carreira para todas. Disputei apenas uma série A, que foi no ano de 2007, pelo América de Natal, mas disputei somente o primeiro turno. Era uma equipe montada às pressas. Agora se trata de uma oportunidade única de, com 31 anos, conseguir me consagrar. Estou trabalhando bastante para poder ajudar o Barueri e, assim, consequentemente estarei ganhando destaque no país.


Há quanto tempo você não se contunde?

Sem lesão e sem parar de jogar?

Isso. Você parece ser um atleta que se lesiona muito pouco...

Sem lesão estou desde 1996, quando joguei no São Paulo.

Dos goleiros brasileiros em atividade pelo que me recordo você é um dos que mais atuam com regularidade e constância...

Fiquei de fora apenas contra o Juventude - atuando pelo Barueri no brasileiro do ano passado-, porque forcei o terceiro cartão. Contra o Paulista, agora, fiquei de fora porque eu estava pendurado e o Estevan até pediu para que eu ficasse de fora para poder tomar o terceiro cartão e chegar nas fases decisivas da taça do interior com a contagem de cartões amarelos zerada.

Você já teve alguma lesão grave?

Não. Tive uma torção no começo do segundo turno do paulista. Tive uma torção de grau três, para ficar de fora, mas prometi a mim que precisava aguentar. Continuei treinando direto e fazendo os tratamentos. Estou curado, mas desde de 1996 atuo sem lesão alguma.

A briga este ano com o Felipe, do Corinthians, será maior para conquistar o prêmio de goleiro menos vazado do brasileiro ou existem outros melhores na sua visão?

Temos grandes goleiros. Os 20 melhores estarão no Brasileiro para ganhar o prêmio. Não será uma disputa somente contra ele [Felipe], mas contra Marcos, Rogério, Vitor, do Grêmio, enfim, grandes goleiros. O Brasil está bem servido de goleiros; sei que vou fazer um grande trabalho e não vou decepcionar.

Você falou que saiu das categorias de base do São Paulo (sub-20). Faltou apoio da diretoria ou financeiro para permanecer em uma equipe grande? O que aconteceu que você saiu?

Em 1996, na época, o Zetti e o Rogério ainda jogavam e tinha outros dois bons goleiros. Eu estava na categoria juniores quando apareceu a oportunidade de jogar no campeonato paranaense, pelo Londrina, em 1997. Eu tinha notado essa oportunidade e o time de Londrina tinha sido recentemente campeão paranaense. Era, na época, a quarta maior força do Paraná, do interior. A equipe de Londrina pediu cinco jogadores emprestados ao São Paulo e eu acabei indo para lá.

Foi uma decisão sua?

Foi uma decisão minha. Pedi para que eles [São Paulo] me emprestassem e era uma oportunidade de aparecer. Foi uma escolha fracassada porque fiquei três meses sem receber. Foi uma equipe que prometeu fundos e mundos, mas não cumpriu o contrato.

E até hoje eles não te pagaram...

Já recebi uma parte do dinheiro porque entrei na justiça, mas ela vai e volta. Deus me deu em dobro o que eles [Londrina] tentaram me tirar. A partir daí, comecei a rodar. Goleiro não pode ficar parado, tem que estar sempre jogando porque senão não aparece. Até que pareceu a oportunidade de eu ir para o Mirassol, dez anos depois, em 2007. Fui o goleiro menos vazado do campeonato paulista da A2. Fui também o goleiro menos vazado de toda história do campeonato paulista. Trabalhei no América (RN), onde tive a oportunidade de disputar a série A, no primeiro turno, e apareci bem. Depois, fui para o Gama (DF), ainda em 2007, para jogar a série B, em Brasília. Pouco tempo depois, o Barueri viu minhas atuações e acabou me contratando.

Hoje você já imaginou que poderia ser o reserva imediato do Rogério Ceni ou até mesmo ser o titular da equipe tricolor uma vez que ele está machucado? Isso causa frustração? Em algum momento você pensou nessa hipótese ou você está tão bem no Barueri que não cogita a idéia de atuar em equipes como Palmeiras, Corinthians, São Paulo e Santos?

Se eu tivesse esperando, hoje seriam 13 anos de espera. O Rogério é um goleiro que não dá brecha para o reserva [Bosco]. Apenas com a contusão a oportunidade apareceu para o Bosco. Hoje, estou muito bem instalado em Barueri. Tenho um respeito enorme e muitos clubes sabem quem é o goleiro do Barueri. Hoje, depois de 13 anos, já tive até especulação de que eles [São Paulo] estavam de olho para me levar de volta, mas é somente especulação e não há nada de concreto. Estou muito bem no Barueri, mas ainda sonho sim com um grande clube. Tenho duas opções: fazer do Barueri um clube grande ou trabalhar num grande clube para que ele faça parte do meu curriculum profissional e de carreira. Sonho e busco isso. Tento fazer meu trabalho, realizar grandes jogos e partidas, tendo em vista a pessoa que sou e fazendo com que os outros me enxerguem bem. Talvez dessa forma um grande clube irá despertar um dia o interesse em me levar ou então farei do Barueri um grande clube.





Você citou o desejo de jogar em um grande clube e essa será uma das metas a serem atingidas na sua carreira. Há preferência de vestir a camisa de algum grande time da capital paulista? Alguém cogitou seu nome além de ‘extra-oficialmente’ terem dito que o São Paulo voltou a procurá-lo? Há algo latente, um gosto?

Gosto eu tenho por um grande clube, um grande salário, para dar algo melhor para minha esposa e minhas filhas (risos). Isso daria uma vida melhor a minha família. Essa questão de gosto até tenho, mas é meio antiético falar. Minha maior realização era fazer parte da história do Barueri e fazer com que nos tornássemos um grande clube. Para mim isso seria muito bom de se realizar.

Existem muitos boatos e fofocas no futebol. O que pode ser desmentido sobre o Renê? Alguma fraca especulação? Sobre transferência para clubes grandes, existe alguma coisa concreta?

Tive propostas do Botafogo (RJ), Atlético Mineiro, e já teve a sondagem do São Paulo, mas até agora não tive nada que me tirasse do Barueri e que me desse uma condição melhor do que o clube me dá atualmente. Estou muito feliz no Barueri e muito grato.

Você tem algumas coisas em comum com o goleiro são-paulino, como: o fato de ambos terem um belo retrospecto pelos clubes onde passaram. Você chegou a conhecer o Rogério? Como era o relacionamento entre vocês? E com o Zetti que era o goleiro titular?

O Zetti é um exemplo a ser seguido, um cara de caráter fantástico. Falo em caráter porque o goleiro tem que ter um bom. Ele deve ser querido pelos jogadores e comissão técnica. Tento me espelhar no Zetti, mas o Rogério não é diferente. A liderança dele é fantástica. No jogo das finais, após a contusão dele no paulista, o São Paulo distribuiu faixas de capitão para a torcida inteira e isso se deve ao respeito que ele tem dentro do Morumbi e junto à coletividade. Treinei com o Rogério poucas vezes porque eu fazia parte da categoria juvenil, mas, uma vez por semana, treinávamos com os profissionais. Tive oportunidade de conhecer mais de perto o Zetti mesmo. Eu cuidava da chuteria que o Zetti usava e tenho até hoje chuteira dele. Para mim, ele foi um cara excepcional debaixo da trave e fora de campo também; ele é uma grande pessoa. Já o enfrentei como treinador adversário e até comentarista.

Você gostaria de ser um dia comandado pelo Zetti?

Gostaria muito de ser comandado por ele. Colegas que trabalharam com ele falam muito bem. Como goleiro ele já comandava uma equipe e hoje continua no comando. Independente das funções, muitos dizem que ele é a mesma pessoa. Tenho muita vontade de trabalhar com ele. Sei que ainda vamos trabalhar juntos porque ele ainda deve chegar num grande clube e é merecedor disso. Sobre o Rogério, jogamos como adversários, mas sempre conversamos um pouco. Somos capitães em nossas equipes e batemos um papo na hora da escolha de campo ou da moeda. Tive a oportunidade de conversar um pouco com ele na Internet também. Ele é um cara que se espelha muito no Zetti. Se você olhar para ele, Rogério, se lembra um pouco do Zetti.

Falando em liderança e do posto de capitão do time, isso faz pensar que você deve trilhar uma carreira semelhante ao do Zetti. Você já pensou, no futuro, em seguir a carreira de treinador?

Na verdade estou cursando marketing para trabalhar na parte burocrática do futebol. Há muitas coisas a serem exploradas ainda. Muitos falam que tenho o perfil para ser treinador ou auxiliar técnico, mas tenho que me preparar para várias coisas e para ver onde poderei me encaixar depois que encerrar a carreira. Penso muito nisso e estou me preparando para esse momento. Penso até em ser, talvez, um dirigente.

Com críticas agudas à defesa do time, como o elenco tem reagido à contratação do zagueiro André Luís que jogou em clubes como Santos e Olympique de Marseille? O que você achou da contratação?

Ele vai ajudar muito e está recuperando a forma. Ele tem tempo para isso. Estamos indo para Itu para início da temporada. Precisamos estar na ponta dos cascos do Brasileiro e ele tem tudo para ser muito útil para o grupo. Quanto ao fato da defesa receber críticas, conversamos, dentro da equipe, e chegamos a conclusão de que o Barueri é uma equipe muito ofensiva. Apesar de ter tomado muitos gols, a equipe é uma das que mais fez também. Isso acaba deixando a defesa mais exposta e desprotegida. Ela ataca com seis atletas e defende com quatro mais o goleiro. Tanto é que jogos como: 5 a 3 e 4 a 2 mostram a ofensividade do Barueri. Para fazer bastante gols, acabamos nos expondo lá atrás na zaga. O Castan, Daniel e Ralf, que estão jogando atrás, na minha opinião, estão muito bem e fazendo um grande papel. Às vezes os números dão uma brecha para falar que a defesa bate cabeça, mas dentro de campo os jogadores estão fazendo um grande trabalho. Quem está chegando está fazendo um grande trabalho e cabe a comissão técnica resolver quem vai jogar, mas estou muito satisfeito com a zaga.






Qual a diferença de vestir a camisa do G.R.B para clubes como o Juventus, da Mooca, e o Gama (DF)?

Costumo vestir a camisa da equipe que estou e procuro não só defender no dia do jogo, mas ajudar em outras coisas meus companheiros. Quando você chega para treinar e o companheiro está cabisbaixo, você precisa absorver aquilo para levantá-lo. Estive no Juventus e não tive muita oportunidade de ser titular, mas trabalhei forte tentando buscar uma brecha. Havia lá bons goleiros atuando. No Gama vesti a camisa e chegou um momento em que brigamos para estar entre os quatro primeiros da série A2. Pedimos até para ficar alguns dias a mais e nos fechamos mesmo para concentração. Em outras equipes não é diferente e no Barueri também não. Faço tudo para transformar a equipe num grande clube, e como? Sempre tentando aconselhar meus companheiros que o melhor clube para nós é o Barueri. O clube é aquele que nos paga, nos coloca em evidência e que dá estrutura familiar. O Barueri é uma equipe muito fantástica de se trabalhar. No Barueri é só pensar em trabalhar e jogar porque eles nos dão tudo. É uma estrutura diferenciada. Sei que eles procuram acompanhar os moldes do São Paulo, que é referência. O Barueri te dá o prazer de realmente vestir a camisa. É assim que eu penso e falo.

Em quem você se espelha na sua profissão?

Me espelho no Taffarel pela frieza dele. Já o vi tomar gol, ser vaidado, e aplaudido no final de um jogo. A frieza dele de pular pouco na bola e estar sempre bem colocado me fascina. Vejo minha carreira voltada ao perfil dele e do Dida. Procuro mesclar um pouco de cada estilo para ser o Renê, mas que seja um pouquinho de cada. Me espelho em goleiros que conseguem reverter a situação de vilão a herói na mesma partida. Acho isso fantástico.

Quem foi o maior que você já viu atuar?

Taffarel para mim é o melhor. Lembro de uma festa comemorativa que houve entre os goleiros e eu o conhecia, mas eu achava que ele não...

Quem estava nessa festa?

Estavam somente goleiros. Estava o Ronaldo, ex-Corinthians, e todo eles. Quando fui cumprimentá-lo [Taffarel] e estiquei a mão, ele já me chamou pelo nome e eu me arrepiei todo porque vi que ele acompanhava o meu trabalho e o do pessoal que estava ali presente. Ali mesmo ele me parabenizou pela trajetória de 2008. A minha maior conquista no futebol foi quando estiquei a mão para cumprimentar o Taffarel e ele me chamou pelo nome.

Seu contrato com o clube vai até o final de 2009, certo? Já pintou interesse de algum clube em adquirir seu passe ou o G.R.B. está cuidando da renovação?

Sobre a renovação ainda não há uma conversa, mas sei que o Barueri tem muito respeito por mim e vai me chamar para conversar. As especulações existem e o Barueri sabe. Não há como esconder pelo trabalho que venho fazendo e uma hora algo aparece. O mercado brasileiro de goleiro é muito bom, há propostas, mas tenho muito carinho e sou muito grato pelo Barueri. Vou fazer de tudo para ficar aqui, desde que tenha reconhecimento de ambas as partes.

Como a maioria dos atletas de alto nível, você vem de clubes menores. Como tem sido o garimpo de goleiros nas várzeas? Como o René avalia a situação de garotos nessas condições? Você acompanha?

Acompanho e vou assistir aos treinamentos dos times de base. Vejo o pessoal jogando futebol amador e dou dicas. Já passei por isso e chegou minha vez de retribuir. Vejo que a escola de goleiros no Brasil daqui a cinco anos não terá igual. O goleiro mais técnico do mundo é o brasileiro.

A imprensa já tem atentado para isso, sobre a formação e núcleos de goleiro consistentes e especializados. Existia, em tempos passados uma defasagem nesse setor, mas parece que agora há um crescente aperfeiçoamento dos profissionais...

O pessoal está sabendo trabalhar o goleiro jovem e lapidar seus talentos. Hoje não tem mais aquelas peripécias de dar cambalhotas e um monte de coisas que não acontecem num jogo. Está sendo trabalhado, principalmente, o caráter do goleiro que é diferente. Ele deve ter uma personalidade muito forte, ser leal e franco. Se ele for equilibrado, a chance dele sair na frente é enorme. Passo muito isso para os goleiros novos, de que eles não podem ser ‘boleirões’. Eles não podem se empolgar facilmente. O tombo deles está no próximo chute. Eles precisam buscar o equilíbrio e não ficarem pensando no que já passou. Ele [goleiro] não pode ficar pensando numa falha porque senão não consegue recuperar na frente. É isso que o Taffarel e o Dida me chamam a atenção. É esse o equilíbrio que hoje procuro ter. Tive a felicidade de ver esses goleiros jogando e hoje tento ser pé-no-chão e não me empolgar com o momento.



Você gostaria de acrescentar mais alguma informação, deixar algum recado?

Quero dizer que o atleta não pode desistir nunca. Aos 29 anos eu estava jogando no campeonato goiano e fui despejado numa praça. Fiquei dois dias dormindo na praça porque o time me deixou ser despejado do hotel. Sem ter o que comer pedi comida na prefeitura e eles me mandavam marmitex vindos do presídio. Não quero desmerecer a comida dos detentos, mas não é uma alimentação de base sustentável para um atleta. Não desisti e aos 29 anos estava nessa situação. Em 2007 minha vida mudou porque não desisti. Já tinha meus filhos e todos falavam para eu parar de jogar. “Olha que situação você está passando”. Não desisti e tive uma família muito forte que me ajudou muito e que é a base da minha vida (que são minha esposa, filhos, pai e mãe). Não desisti e o que Deus me proporcionou hoje é enorme. Tenho hoje uma vida equilibrada e posso dar o melhor para os meus filhos. Quem não desistir vai chegar porque Deus não desampara e dá chances. Quando Ele der aproveite, mas não deixe o sucesso subir à cabeça. Você deve ser pé-no-chão porque você sabe das dificuldades enfrentadas no passado. Deixo esse recado: não desista. Carrego no peito uma tatuagem que é inclusive uma frase do hino nacional: “Verás que um filho teu não foge à luta”. Não fugi e não fugirei jamais.

O áudio da entrevista pode ser ouvido no formato podcast no site: http://www.webdiario.com.br/













É possível também fazer o download do arquivo.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Entrevista - Gilmar Ex-Goleiro do Palmeiras

ENTREVISTA

Leir Gilmar da Costa
(ex-goleiro nas décadas de 80 e 90)



Ricardo Datrino
(ricardodatrino@webdiario.com.br)

Nascido em Marília e hoje com 52 anos, Gilmar treina alguns garotos em uma escolinha de futebol em Osasco, na grande São Paulo. Além dessa atividade, ele se candidata a vereador pelo município, mas nessa entrevista ele conta somente os bastidores e as histórias além dos gramados. O goleiro brilhou na capital paulista primeiro defendendo a camisa do Palmeiras, por cinco anos. Anos depois jogou no Rio de janeiro atuando no Bangu. Gilmar é lembrado, principalmente, pela sua atuação no clube paulista, pois logo em seu segundo jogo ele teve de enfrentar uma prova de fogo que era o jogo final do Brasileirão de 1978 contra o Guarani, em Campinas, em que Leão foi expulso na primeira partida e não podia jogar a final. Nesta entrevista, o ex-goleiro relata o caso e conta como foi ter praticado grandes defesas, mas não evitado a derrota e perda do título nacional. Gilmar também conta do ‘confusão’ e a frustração que foi não ter sido convocado para a Copa do México em 86.

Em pesquisa via Internet, me chamou atenção o fato de ter encontrado uma figurinha com uma foto sua sendo vendida à R$ 3,00 por um torcedor que mora em Fortaleza. Como você vê a sua ‘imagem’ tão bem valorizada? É um preço muito superior, não? Isso se pensarmos que cada figurinha custa em média dez centavos. Claro que é uma brincadeira, mas o que você acha desse episódio e como vê a sua imagem, propriamente dita, junto aos clubes em que jogou?

A gente, que foi jogador de futebol, é como você estudante, ou jornalista, é uma mera circunstância. Você nasce com o dom e vai jogar seu futebol. A gente sabe que o glamour do futebol envolve as pessoas. A pessoa está aqui em São Paulo e está toda hora vendo [os atletas], mas quem mora lá no Ceará, na Paraíba, dificilmente vê a pessoa de perto. Então, isso passa a ter o que? Um valor de mercado. Então, essas figurinhas quando saíram lá na década de oitenta, né? Saíram em algumas figurinhas de chiclete - era um álbum e tal-, teve a sua valorização. Trinta anos depois, quem ainda tem isso - e a gente que continua na mídia fazendo alguma coisa - existe aquela valorização muito natural com os grandes astros. Lógico que em pequena escala, não como Maradona, Sócrates e Rivelino, mas estes caras tiveram também seu papel importante dentro do futebol. Como o futebol movimenta muitas pessoas, a valorização dessa figurinha foi legal [risos] a gente se sente até meio... é uma maneira muito honrosa de você receber uma homenagem porque você vê que uma simples figurinha consegue movimentar algumas pessoas e criar uma situação como essa.

Como é a sua relação com o público torcedor que mora distante desses grandes pólos como é São Paulo e Rio?

Assim: de vez em quando eu encontro algumas pessoas e, como a gente viaja muito, é muito legal. O povo de fora é como o de São Paulo também, mas como eles têm uma dificuldade em ver, quando eles vêm, eles criam um clima. Eles querem tirar foto. Teve um dia que eu fiquei fazendo um jogo em São Paulo, de máster, e entrou um cidadão e disse: ‘Cadê o Gilmar, cadê o Gilmar? Eu sou da Paraíba e eu falei para a minha mãe que um dia ia ver ele de perto’. Era um senhor de mais ou menos 40 anos e ele começou a chorar e aí eu peguei a luva e dei para ele. Então, o cara quase que teve um infarto na minha frente. Então, você vê a importância que eles dão para uma coisa que é o futebol. Eu não vejo dessa forma. Eu sou uma pessoa simples, né? Sempre cresci com o futebol, mas sou uma pessoa simples. Então, quando você vê uma coisa dessas é realmente muito emocionante e eu fico muito gratificado.

Como foi para você ter feito parte de um clube que tem uma tradição no país de revelar bons goleiros, no caso o Palmeiras?

Quando eu cheguei no Palmeiras, o treinador meu de goleiro era o Joaquim Valdir de Moraes (sic), que foi quem alavancou o treinamento para goleiros no Brasil. O titular era o Leão, que já era um grande goleiro. Já tinha vindo depois do Valdir de Moraes e do Oberdan [Cattani], que também foram grandes goleiros. Numa final, o Leão foi expulso e eles me lançaram na decisão contra o Guarani, em 78, e eu entrei e tive uma boa figura. Aí fui titular durante cinco anos no Palmeiras. Então, nós tínhamos ali aquela missa de que o Palmeiras sempre teve bons goleiros, então, recaia sobre a gente uma responsabilidade de ser um bom goleiro também. Então, a trajetória que nós tivemos no Palmeiras, que foi entre júnior e o profissional, que foi de mais ou menos 10 anos, sempre mantive uma regularidade e tive uma conotação também de ser um bom goleiro (embora você saiba que os goleiros nem sempre são perfeitos). Mas de um modo geral a minha passagem no Palmeiras, principalmente por ter o Valdir de Moraes como treinador foi muito boa, discreta, mas foi muito valiosa.

Gilmar, como foi ter trabalhado com o Émerson Leão? Gostaria que você contasse um pouquinho.

Quando eu cheguei no Palmeiras o Émerson Leão já estava na seleção e eu era moleque e vinha em ascensão. Eu confesso para você que a nossa amizade não era lá muito afetiva porque eu causava um incômodo a ele, uma vez que eu tinha sido campeão e bi-campeão nos juniores. A mídia dizia: ‘Esse aí vai substituir o Leão’. Então, ele se sentia incomodado, né? Até o dia em que eu estreei, ele foi lá me cumprimentou e falou: ‘Olha, boa sorte você chegou lá, você mercê, você ralou.’ Porque foi difícil. Eu fiquei na reserva dele dois anos até fazer um jogo. No dia em que eu fiz o jogo eles viram meu talento e o Leão foi transferido. Eu passei a ser o titular. Mas de qualquer forma, o início da minha carreira, quando eu tive um relacionamento com ele, profissional, foi muito bom. Em termos afetivos não foi tão bom assim até porque eu causava uma ameaça a ele.

O que você acha da atual geração de goleiros que o Brasil vem revelando?

Eu vivi duas épocas distintas do futebol, né? Na primeira eu não peguei aquela [fase] do Garrincha, que era mais antiga. Mas na minha época, você tinha goleiros como o Carlos da seleção, Taffarel, Valdir Peres, que era um bom goleiro. Hoje, o que manda, em termos de futebol, é Marcos e Rogério Ceni. Aparecem alguns aí também: Dida e Doni, que também eram, mas foram embora. Então, antigamente, não querendo ser saudosista, os times contavam com goleiros um pouco mais eficientes. Hoje, nós temos algumas limitações - até porque mudou muito. Antigamente, tinha que se agarrar as bolas e hoje eles rebatem elas. Mudou um pouco a dinâmica. Mas de qualquer forma, alguns clubes ainda têm grandes goleiros, que são os casos de Marcos e Rogério Ceni que são sem dúvida grandes goleiros.

Com estes altos e baixos da seleção e tendo realizado apresentações bastante contestadas, qual a sua opinião sobre os goleiros da seleção brasileira que hoje são convocados?

Os goleiros da seleção que hoje são convocados assim: primeiro a gente vê alguns bons goleiros do lado de fora e alguns que tem boa atuação, que é o caso do Doni, que está no Roma. Esse menino Renan e alguns goleiros que realmente tem potencial, tem o Julio César, que são grande goleiros. O problema é que, às vezes, nós temos um pouco de bairrismo. ‘Ah... vamos levar esse do Rio porque é do Rio, vamos levar aquele de São Paulo porque é de São Paulo. Ah, não leva o Marcos porque o Palmeiras, é verde, não vamos levar o Rogério Ceni porque ele é são-paulino’. Então, existem algumas desculpas que não convencem. E o garoto que é convocado, ele vai. Ele é convocado, tem que ir. Porém, na ótica da maioria das pessoas que trabalham com futebol, que é o meu caso, eu acho uma tremenda injustiça, um tremendo mau gosto, deixar goleiros como Marcos e Rogério Ceni fora da seleção. Mas eu sou apenas mais um atleta que tenta dizer. Aí dizem: ‘O cara não sabe nada, eles tem potencial’. Porém, existem situações políticas dentro de uma seleção que você sabe que algumas cartas, de qualquer forma, são marcadas e a gente tem que respeitar até mesmo porque eles são pagos para resolver aquele problema. Nós como torcedores hoje, e analisamos futebol de forma bem fria, eu vejo dessa forma. Existem ainda algumas injustiças lá dentro.

... Então você acredita que eles ainda possam ser titulares da seleção e...

Sem dúvida. Tem potencial hoje, pega o cara e: ‘Olha, vai lá, veste a camisa de titular e acabou’. O cara tem potencial, pelo menos esses dois casos. Eu sou suspeito para falar.

... Independente da idade?

Independente da idade. Eu joguei até os 43 anos. O Dino Zotti foi campeão na Itália com 41 anos. O [Peter] Shilton foi campeão mundial com 40 anos. Teve um goleiro da Irlanda que jogou até 50 anos. Então, a idade é de menos. Naturalmente, no país em que vivemos, que é o Brasil, ficou com uma certa idade já está velho para jogar futebol e isso em qualquer área. Chegou aos 40 anos está marginalizado, só que tem que rever os conceitos porque tem muita gente com 20 anos que já acabou também, [risos] não é? Não paira sobre ela uma responsabilidade maior. Eu acho que o jogador se ele está bem fisicamente ele tem que ser convocado independente da idade.

O que você acha dos goleiros do Palmeiras de hoje?

Hoje o Palmeiras conta com o Marcos... o Diego Cavalieri foi embora. Hoje vem um menino muito bom começando que é o Bruno. Então, o futuro do Palmeiras está em cima desses goleiros. Tem um mais novinho lá que o pessoal chama de Dida e é um moreninho e tal que também tem potencial e já vem das equipes de base e vem crescendo. Hoje, nós contamos assim: O Marcão recuperou a mão e está com a cabeça boa e tal. Eu estive conversando com ele há uns tempos atrás e ele disse: ‘Ah eu acho que vou parar porque o meu braço...’ Mas não [eu disse] ficou bom, vai recuperar [e você] está agarrando muito. Você jogar num time ganhador você joga, o duro é quando você está num time perdedor. Aí você envelhece e acaba sua carreira. Mas no caso dele especificamente...

...ele já passou por todos esse momentos, não?

Já passou, então, e hoje a experiência dele é muito importante, além de ser um cara carismático, todo mundo gosta dele. Por trás lá, também tem bons valores que a qualquer momento podem substituí-lo.



Gilmar, quem é um modelo de goleiro para você? Quem foi sua inspiração no início de carreira?

Quem me inspirou primeiramente, pelo biótipo, foi o Félix. Eu não era muito grande e nunca fui tão grande, em termos de estatura, e o Félix tinha 1,78 e 78 quilos. E achava que se eu chegasse nessa altura eu podia ser goleiro porque se o cara joga na seleção com essa estatura, por que eu não posso [risos]? Eu passei da estatura dele, de peso e altura. Eu atingi meu objetivo, mas quem me alavancou na época foi o Félix. Durante o meu trajeto, um dos grandes inspiradores (sic) foi, que eu até joguei contra quando jovem, o Belga e o [Rinat] Dasaev, aquele Russo, que eu joguei contra eles quando fui convocado para a seleção. Tive três convocações para a seleção e numa delas eu joguei contra eles [russos]. Aquilo me motivou muito. Eu vi aqueles caras jogando e, então, sempre tinha inspiração, embora o Brasil tenha tido grandes goleiros. A primeira inspiração minha foi o Félix, depois o Dasaev, aquele russo, que realmente era acima do normal.

Gilmar, agora para cutucar. Gostaria que você comentasse o jogo em que você foi expulso, após ter batido no jogador Ataliba, em 83, contra o Corinthians. Um jogo em que o Palmeiras acabou tomando uma das maiores goleadas sofridas por 5x1...

... Foi o jogo do Casagrande...

Qual foi a sua sensação? Como o atleta lida com isso?

Eu nunca tinha sido expulso até então. Aliás, foi a primeira expulsão. Nós já estávamos ganhando o jogo de 1x0 e, a gente sempre ganhava do Corinthians, eu sempre tinha boas performances. Só que eles fizeram um gol em que o juiz apitou, o árbitro apitou e continuaram a chutar. A torcida gritou, o árbitro abaixou e foi até o meio de campo. Eu já fiquei meio chateado ali. Naquele tempo, podia atrasar a bola para o goleiro e me atrasaram uma bola. Eu fui sair jogando e o menino ficou me peitando ali na frente, que era o jogador Alfinete, lateral direito, e não o Ataliba.

... Alfinete?

Isso, Alfinete, lateral direito. Bom... o Alfinete ficou na minha frente assim [de braços abertos] tentando não me deixar sair jogando. Aí, eu com a mão assim: [nas costas dele] e ele com a mão na frente me atrapalhando. Eu, caminhando, desferi um pontapé na canela dele só que eu não acertei, errei. Só que o juiz marcou a intenção do pontapé. Aí, ele veio, marcou pênalti e me deu o cartão vermelho. Na hora em que ele sacou o cartão vermelho eu fiquei com tanta vergonha que nem discuti. Eu arranquei minhas luvas e sai correndo para o vestiário. Não esbocei nem reação, fiquei sem reação. Achava que aquela reação de você ser expulso e ficar discutindo era pior. Peguei, fui embora e prometi nunca mais ser expulso, como nunca mais fui expulso.

... Era uma questão de moralidade, certo?


É... então eu pensei: ‘Eu fui expulso e o árbitro aplicou a regra.’ Ele foi correto, eu que dei o vacilo mesmo. Só que eu não podia ficar discutindo que ficava pior. Então, eu achei que o feio era ser expulso, mas feio ao quadrado seria discutir após ter sido expulso. Peguei, sai correndo e fui embora. Aí, entrou o João Marcos no meu lugar e o Casagrande fez três gols naquele dia, se não me engano. Acho que o Corinthians ganhou de 5x1.



Você já destacou um bom retrospecto contra o Corinthians. Gostaria que você comentasse seus bons momentos contra o rival.

Teve um jogo que eu estava com quase 40 graus de febre. O Mineiro [treinador] estava falando e eu tremendo falei: ‘Pô, não vou jogar, estou com amidalite. Vou falar para ele que eu não vou jogar’. Aí eu pensei: ‘Ah... não, mas contra o Corinthians? É no Morumbi? Eu vou, deixa quieto’.

... É a oportunidade de todo atleta, um clássico...

Aí, eu cheguei lá, aqueci e tal, dei aquela suada, melhorei, joguei e fui o melhor em campo. Tenho até hoje moto-rádio e o caramba. Ganhamos de 2x1. Foi até um dia em que a Tina Turner veio para o Brasil.

... em que ano foi?

Foi nos anos oitenta. Não tenho certeza se foi 80 ou 81. Tinha até um palco montado e torcedor de um lado só...

... Era [partida] válida pelo Brasileiro?

Acho que era Campeonato Paulista, não tenho certeza. Mas eu me lembro que nós ganhamos de 2x1 do Corinthians. Só que depois eu fiquei três dias de cama porque toda energia que eu usei no jogo eu gastei em campo. Aí, eu caí de cama e só fui voltar na quarta feira. Isso foi uma coisa marcante que foi uma coisa de superação. Mas o jogo mais marcante da minha vida foi 1x0 no Corinthians, em que nós ganhamos no Pacaembu, quando tinha lá 90 mil pessoas. O Corinthians era franco favorito com Sócrates, Palhinha, aquele timão que eles tinham, e nós entramos em campo com um monte de juniores e jogadores machucados, alguns acima do peso, mas nós ganhamos de 1x0 e eu agarrei no mínimo umas 40 bolas a queima roupa. Então, saiu no jornal, que nos últimos 20 anos, era a maior atuação de um goleiro que lá teve. Naquele dia, eu ganhei um rádio, uma televisão, uma geladeira, um moto-rádio... eu cheguei em casa e minha mulher perguntou: ‘Que isso?’ Eu cheguei e disse: ‘Fiz a feira’.

... Mobiliou a casa [risos]?

Mobiliei a casa. E eu estava sem contrato. No dia seguinte vieram em casa e disseram: ‘Vai, assina aí. Quanto você quer e tal?’. Porque no outro dia estava na página de todos os jornais. Então, foi um jogo histórico para mim por se tratar de um Palmeiras e Corinthians e a gente ter ganho o jogo com uma atuação que, na conotação dela [mídia] foi a maior. Eu acredito também que agarrei tanta bola por sorte. A bola batia na trave e em mim e não entrava. Isso marcou muito.

Gilmar, qual a diferença de ter jogado no Bangu e no Palmeiras?

Olha, em termos de tradição...

Por que são duas escolas diferentes, não? A paulista e a carioca...

Em termos de tradição, você jogar no Palmeiras tem todo aquele glamour. ‘Pô, jogou no Palmeiras, é jogador do Palmeiras’. Quer dizer: você tem o status e a tradição. Jogar no Bangu, na época, financeiramente era melhor. Porque o dono do time era o Castor de Andrade, que era um bicheiro. E tudo era em dinheiro. Então, eu cheguei um dia e me deram uma caixa. Eu pensei que era a caixa do tênis para eu treinar, quando eu abri era uma caixa cheia de dinheiro. Aquele dinheiro que eu ganhei, eu ia demorar no Palmeiras dez anos para ganhar e lá eu ganhei num ano só. Então, o Castor de Andrade era um cara assim. ‘O Gilmar, você vai para São Paulo? Eu te dou a passagem. Eu tinha um negócio [uma passagem] de avião que era ele quem me dava e eu voltava a hora em que eu queria. Então, eu saí do Palmeiras e quem me levou para lá foi o Moisés que jogava no Corinthians. Eu jogava e ele [Moisés] falou ‘Ei, tem um cara no Palmeiras que agarra muito bem’. Ele me levou para o Bangu e o Castor me aceitou. Então, jogar no Palmeiras eu tinha status e glamour, jogar no Bangu eu tinha a tradição do Bangu lá ...

... mas também tinha dinheiro na bolso....

Também tinha dinheiro no bolso. Tive que trocar o glamour pelo dinheiro e acho que fiz a coisa certa até porque na época me ajudou bastante.

Você pode destacar, então, o melhor jogo que você fez? Foi esse contra o Corinthians, não é?

Foi esse contra o Corinthians, correto.

Esse que você destacou ter sido à noite...

1x0.

... foi inesquecível...

Foi inesquecível. Inclusive esse jogo deve ter em algum lugar, na Internet.

Como foi a missão de segurar o Guarani no Brasileiro de 78? Como você se sentiu após ter batalhado muito, mas não ter conseguido de fato assegurar o título. Você acha que foi bom para o seu amadurecimento ou você se culpa hoje?

Não, não. Assim: até então, eu estava no Palmeiras esperando uma brecha para jogar e o Leão não saia. Nesta final ele foi expulso. Para mim, independente de ser [ou não] campeão, porque todo mundo queria ser campeão porque queria o dinheiro, eu queria jogar porque ia ser o meu primeiro jogo. Então, a minha preocupação o que que era? Não era nem o dinheiro que eu ia ganhar, se eu fosse campeão, era minha estréia e eu tinha que ter um bom papel. Então eu falei: ‘Se eu entrar e fizer um bom papel, eu tô dentro, se eu for mal, estou fora.’ Então falaram: ‘O Gilmar, vem cá, vem pôr a roupa’. O Leão usava Azul. Nesse dia, quem viu esse jogo da final, eu estou com a bordô porque eu falei: ‘Eu quero uma diferente, eu quero ser eu’. Aí, me deram uma camisa bordô e eu joguei com ela. Então, aquele jogo mesmo perdendo de 1x0 (em que o Beto Fuscão foi atrasar a bola, o Careca roubou e caixa) eu fui o jogador considerado um dos melhores em campo. No dia seguinte eu fiz o contrato e, a partir daí, joguei cinco anos pelo Palmeiras. Mesmo com a derrota, foi um jogo que e guardo com carinho porque foi [o jogo] que me alavancou para o futebol. Eu entrei numa fogueira: ‘Pô, moleque’. Tinha 19 anos.

Esse jogo que você destaca, que o Palmeiras perdeu de 1x0, eu pesquisei a data e foi no dia 6 de agosto de 81. Como foi para você ter sido comparado como uma das melhores atuações e ser comparado hoje a Oberdan Cattani, Marcos? Como é ser colocado neste mesmo patamar que estes atletas são colocados hoje?

Na época quando eles falaram isso você está jogando. Por exemplo, hoje, você vê a coisa de outra forma. Hoje, eu não jogo mais e fico meio emocionado e comovido. Na época, eu achei muito legal, mas quando você estava no auge da carreira, você tinha assim uma certa resistência às emoções. Eu era mais forte. Hoje, eu sou mais sensível. Hoje, de vez em quando, quando eu vejo uma homenagem para mim eu balanço. Naquele tempo, aquilo fazia parte do meu dia-a-dia. Eu realmente, no dia em que acabou este jogo de 1x0, me deu um nó na garganta porque eu sabia que todo mundo ia correr em mim depois que acabasse o jogo. Porque foi muito na cara o que aconteceu. Você agarrar uma ou duas bolinhas tudo bem, mas quando você fala: ‘Eu fui pivô de uma catástrofe’... porque teve uma hora que o Sócrates dentro da grande área chapou, era gol certo, a área tem 3 metros, e eu cai no canto certo [defendendo a bola]. Ele falou: ‘P#%*’ e ficou na área ajoelhado reclamando. Tinha essa foto no jornal dele ajoelhado reclamando. Então, essas coisas marcam a gente. Eu era moleque, mas com o passar do tempo você vê que isso hoje ainda perdura. Quem é palmeirense se lembra e quem é corintiano fica put#. A Internet resgata isso. Isso é motivo de muito orgulho e satisfação [para mim].

No tempo em que você jogava no Bangu, em 84, você ficou frustrado por não ter sido convocado para disputar a Copa do Mundo de 86, no México, após ter sido pré-relacionado pelo, então, técnico da seleção Telê Santana? Você pode descrever como foi ter recebido esta notícia?

Naquela fase final o Bangu disputou final de brasileiro, disputou final de carioca e na época os caras falavam: ‘Quer ir pra seleção, vai pro Rio’. Então quer dizer: eu já estava no Rio e o time estava na final com moral. O Bangu estava 40 partidas invicto e eu disse: ‘Essa é a hora certa’. Quando veio a convocação, o seu Telê não me levou e ele era muito amigo meu. Diz o Valdir Joaquim de Moraes que ele confundiu com o Gilmar que um tempo estava fora, na Arábia, e [o Telê] falou: ‘Mas era o mesmo nome’ e o Valdir falou: ‘Não, era o nosso do Bangu’ e ele [Telê] convocou o outro Gilmar que estava na Arábia. Então, por ser homônimo, diz o Valdir que foi isso, não sei se foi essa a história, ou então, o Bangu, por ser Bangu, não tinha handicap para que um dos seus jogadores fizesse parte da seleção.

Você diz pelo cenário, pela representatividade...

É. Entre um cara do Palmeiras e do Bangu, você vai pegar o cara do Bangu? Só que ninguém esperava que o Bangu fosse chegar na final com o Coritiba. Dois times sem expressão nenhuma, mas que chegaram na final superando grandes times como o Internacional, Flamengo e Palmeiras.

Como você vê o atual panorama político do Palmeiras? Você tem algum candidato que você simpatiza, que você não goste na diretoria... Como você avalia?

Rapaz, lá no Palmeiras eu conheci todo mundo. Eu cheguei lá eu tinha 14 anos. Seu Hugo Palaia, Serafin Del Grande, seu Mustafá Contursi, que antigamente tomava conta das piscinas, seu [Afonso] Della Mônica, seu [Roberto] Cipullo. Todos eles eu tive uma amizade muito afetiva, por ter crescido lá dentro. Como eu não podia vir para Osasco todo dia, eu morava na Vila Pompéia e passava a maior parte do dia dentro do Palmeiras. Então, eu cresci ali dentro. Quer dizer: dos meus 14 aos 25 anos - era onze anos que eu fiquei ali dentro. Então, aquilo me deu uma amizade muito grande lá dentro. Hoje, então, que o Palmeiras quer fazer esse novo estádio existe algumas rejeições lá dentro.

Eu queria que você comentasse, inclusive, um pouquinho sobre o Arena.

Existem problemas, mas o Palmeiras é um clube grande e merece um estádio que comporta um lugar de modernidade. Essa modernidade tem que vir. Às vezes, a modernidade traz algumas divergências, ou seja, não é todo mundo que gosta da modernidade. Alguns são conservadores, mas o Palmeiras merece e tenho ido ao Palmeiras, constantemente, e tenho acompanhado que existe aprovação da maioria, mas existem ainda algumas situações que não concordam. De qualquer forma vai prevalecer a maioria.

As brigas também ocorrem porque é um custo alto as instalações do Arena, certo?

É um custo alto e é complicado o negócio. Mas eu acho que o Palmeiras, por ser o Palmeiras, hoje poder contar com essa massa alviverde eu acho que eles conseguem.

É difícil hoje não é Gilmar você dissociar esse lado de ter jogado no Palmeiras e falar não: ‘O correto é não fazer uma Arena porque é muito caro para o clube...

Não tem como. E hoje em dia está tudo evoluindo. O Palmeiras está lindo. Só que alguns departamentos que estão arcaicos, estão antigos, desde o tempo que eu estava lá. Tem lugares que você vai lá e o ladrilho é o mesmo de 40 anos atrás. O Palmeiras requer uma modernização e a Arena quando vier vai ser perfeita.

Vai ser boa para a Copa...

Opa, independente de quem estiver lá dentro. Existe lá o Hugo Palaia, o seu Cipullo, os caras estão lá, o seu Della Mônica e eu sempre vou lá e falo com eles, mas é complicado. Eu acho que a maioria vai concordar porque é uma modernização e não tem como correr da modernização. Já é moderno lá, fizeram algumas coisas e tal, já mudaram as cores da camisa, já tem algumas modificações. Acho que caminha para isso daí mesmo.

Você gostaria de comentar alguma coisa sobre a sua trajetória no Palmeiras?

A trajetória no Palmeiras eu digo assim: ‘No Palmeiras eu cresci lá dentro’. Tudo o que eu aprendi como atleta, como ser humano, porque na época de adolescente, eu devo ao Palmeiras. Foi onde aprendi tudo. Era um menino simples que saí do bairro do Jardim Santo Antônio [em Osasco]. O Marqueti me viu jogando pelada nos campos, fui para lá com 14 anos e me tornei um profissional. Então, eu fiz a minha vida em cima do futebol e o Palmeiras foi a equipe que me alavancou. Cheguei lá novinho e aprendi tudo ali. A gente, que é profissional, aprende uma série de coisas, até educação.Você aprende uma série de coisas que vai fazer de você um cidadão independente de ter uma profissão que é jogar futebol. O esporte me ensinou muito em termos de assiduidade, comportamento e cultura. Conheci vários países através do esporte e isso foi de grande valia na minha formação que é o que eu tento passar hoje para os garotos que eu treino, que é muito importante você ser um atleta, mas acima de tudo ser antes um cidadão com todas as qualidades necessárias.






quarta-feira, 11 de julho de 2007

Função de Artista

A Festa Literária é um evento multifacetado. Em meio a inúmeros transeuntes, um Artista brilha. No anonimato, à margem do evento, quase desapercebido pelos turistas sua participação é fundamental e sua atuação é tão precisa que delineia a geografia das ruas da bela cidade de Parati. Seus movimentos singelos, simples, olhar baixo, de uma pessoa que já viu muitas coisas, envergonhado, cabelos brancos, mãos calejadas, cheias de esparadrapo, pelo árduo serviço artístico, são algumas características físicas do Artista.

Sapatos sujos por uma camada rasa de pó, camisa suada e calçados levemente furados, ele nos diz que há muitas horas está trabalhando, mais ou menos quatro. São oito horas. O modo de falar lembra a simplicidade do Jeca Tatu, personagem de Monteiro Lobato. Ao mesmo tempo em que o Artista é experiente pela vivência é paradoxalmente juvenil no que tange ao conhecimento escolástico. Baixa escolaridade não é problema quando o espírito do Artista é grande. Ele compreende que seu trabalho é colaborar para que a festa esteja “organizadinha”.

- Artista! Não é um trabalho muito duro?
- Não é não senhor, fica tudo muito lindo, a gente tem prazer de trabalhar perto da praia e ver as pessoas contentes.

E quem não acha que ele tem razão? Trabalhar tendo ao redor uma paisagem paradisíaca como a de Parati, com praias, um centro histórico belíssimo e conservado, que abriga muita riqueza cultural é para de fato ninguém reclamar, tendo em mente os problemas da conurbação. Neste período de festa, passa-se a respirar literatura, uma diversidade cultural e que confronta pontos de vistas plurais, discussões complexas e pertinentes, mas Artista pouco conhece sobre isso. Ainda assim sem saber ele participa desse núcleo que tende a marginalizá-lo. E é por isso que o admiramos, ele trabalha, rala e poucos o vêem, mas mesmo assim ele insiste em sobreviver com sua obra.

Esta cidade é com certeza um lugar em que muitos gostariam de trabalhar, se obviamente fossem reconhecidos. Reconhecidos? Há um provérbio na filosofia que diz que as pessoas só se mantém vivas pelo impulso do reconhecimento observado da sociedade. Mas se o Artista não tem esse prestígio, o que o leva a querer viver sem o reconhecido da sua sociedade?

O olhar acurado do Artista nos deixa a resposta. Não é preciso haver reconhecimento, apenas continue a fazer o que acha que deve fazer e alguém um dia, talvez, notará seu trabalho. Há pessoas, por exemplo, que só tem reconhecimento em vida póstuma. Não é preciso esperar a morte para a redenção, mas atentar para as simples ações do cotidiano e das relações humanas já dignificam o modo de viver.

Ao observarmos o Artista, dependemos do referencial ao qual olhamos; para muitos de nós, ele é apenas mais um elemento pertencente a engrenagem da máquina harmônica da sociedade, o trabalho. Marx dizia que o trabalho é um mecanismo que insere o indivíduo na coletividade e o faz dar sentido à vida tirando-o de um dos processos de alienação.

O simples trabalho do Artista o faz sentir-se útil, e ele é, ao desconstruir a idéia do alienado social. Não é necessário fazer grandes realizações ou tecer discussões profundas. Varrer a calçada da rua ou a da nossa casa, já é a grande obra do Varredor, Funcionário público e Cidadão: Ronaldo Artista Nogueira.


terça-feira, 10 de julho de 2007

Bonecos dão um toque de criatividade

“A arte é um compêndio da natureza formado pela imaginação”.
Eça de Queirós


Uma tradição na FLIP são os bonecos de papel marche, construídos pelas crianças das escolas públicas da cidade, através de uma oficina ministrada pelos escultores locais. Os bonecos gigantes representam grandes clássicos da literatura. A idéia foi reeditada, com novos temas. Olhando atentamente a cidade, descobrimos, também, figuras do folclore brasileiro.

De acordo com os organizadores do evento, os bonecos são sempre sucesso na FLIP, o que podemos perceber nitidamente. Quando as crianças chegam à praça do centro histórico de Parati, ficam perplexas com o colorido e o tamanho dos bonecos. Ao verem que nem todos os bonecos são imóveis, querem logo saber como são feitos e como funcionam aqueles que se movem.

A técnica do papel marche é tradicional em Parati e muitas vezes é passada de pai para filho nos quintais. Em parceria com um programa educativo, os alunos da rede escolar aprendem, a partir das referências da literatura e da cultura local, a fazer os bonecos. Nas instalações, alguns bonecos montados em frente à Flipinha este ano são: Alice no País das Maravilhas, Cirandeiros de Parati, A Metamorfose (Kafka), Jeca Tatu, João e Maria na Casinha de Doces, o Saci, a Mula-sem-cabeça, dentre outros.

Durante a Flip, crianças e jovens de escolas públicas desfilam, pelas ruas da cidade, vestidos nos grandes bonecos que por eles são feitos. Aos turistas e curiosos é possível também vestir-se nos personagens e emergir na brincadeira e nesse mundo de fantasia que não é assim tão simples e ingênuo. A arte visa mostrar às crianças a riqueza presente nas obras e a problemática que envolve cada uma, levando o adulto e a criança à reflexão do que é observado.