terça-feira, 10 de julho de 2007

Bonecos dão um toque de criatividade

“A arte é um compêndio da natureza formado pela imaginação”.
Eça de Queirós


Uma tradição na FLIP são os bonecos de papel marche, construídos pelas crianças das escolas públicas da cidade, através de uma oficina ministrada pelos escultores locais. Os bonecos gigantes representam grandes clássicos da literatura. A idéia foi reeditada, com novos temas. Olhando atentamente a cidade, descobrimos, também, figuras do folclore brasileiro.

De acordo com os organizadores do evento, os bonecos são sempre sucesso na FLIP, o que podemos perceber nitidamente. Quando as crianças chegam à praça do centro histórico de Parati, ficam perplexas com o colorido e o tamanho dos bonecos. Ao verem que nem todos os bonecos são imóveis, querem logo saber como são feitos e como funcionam aqueles que se movem.

A técnica do papel marche é tradicional em Parati e muitas vezes é passada de pai para filho nos quintais. Em parceria com um programa educativo, os alunos da rede escolar aprendem, a partir das referências da literatura e da cultura local, a fazer os bonecos. Nas instalações, alguns bonecos montados em frente à Flipinha este ano são: Alice no País das Maravilhas, Cirandeiros de Parati, A Metamorfose (Kafka), Jeca Tatu, João e Maria na Casinha de Doces, o Saci, a Mula-sem-cabeça, dentre outros.

Durante a Flip, crianças e jovens de escolas públicas desfilam, pelas ruas da cidade, vestidos nos grandes bonecos que por eles são feitos. Aos turistas e curiosos é possível também vestir-se nos personagens e emergir na brincadeira e nesse mundo de fantasia que não é assim tão simples e ingênuo. A arte visa mostrar às crianças a riqueza presente nas obras e a problemática que envolve cada uma, levando o adulto e a criança à reflexão do que é observado.

A arte de comer

“Os maus vivem para comer e beber. Enquanto isso, os bons comem e bebem para viver”.
Sócrates


Aos que não desejam gastar muito com alimentação em Parati, é possível comer um pastel de 30 cm no centro histórico. Claro que ele não é tão barato assim, custa entre R$ 6 e 10 reais cada e varia de acordo com o recheio escolhido pelo cliente. Mas uma coisa é certa, ele sacia momentaneamente a fome da pessoa.

As crianças ficam meio desajeitadas, os mais velhos com vergonha de fazer sujeira em público, mas o fato é que todos querem provar a novidade. O sabor é muito agradável.

Mãe, Como é que eu faço?
Ora, pegue um papel, corte e tome cuidado para não....

Mas você derrubou...
Ah... Deixa pra lá. Coma o seu e me deixe quieta...
Ta bom o pastel, né? E eu nem fiz sujeira.

Show de Abertura

A abertura da quinta FLIP inicia-se com uma belíssima apresentação da Orquestra Imperial, que toca ritmos como: carnaval e funk, gafieira e soul, samba e bolero na Festa de Parati. Com músicas que trazem uma nostalgia aos mais experientes e inveja aos mais jovens, ela causa admiração pela leveza do som e bom tom das letras. A Orquestra é classificada por críticos da atualidade como um dos maiores coletivos de talentos contemporâneos da música brasileira.

Criada em 2002, a Orquestra conta com 18 integrantes. Entre eles músicos clássicos como Wilson das Neves, um dos maiores bateristas da história do MPB até revelações recentes, como Rodrigo Amarante (Los Hermanos), os três integrantes do grupo +2 (Moreno Veloso, Kassin e Domenico), as cantoras Thalma de Freitas, que participou de novelas da Rede Globo, e Nina Becker além do guitarrista Pedro de Sá. Um dos pontos fortes da apresentação é Bidu, o trombonista que nos prestigia com seus solos e, algumas vezes durante o show, brinda o público com sua voz em velhas marchinhas cantadas pela orquestra.

A banda trás para a apresentação, na Tenda da Matriz, o músico João Donato, um dos mais talentosos do país, em uma parceria inédita. Nascido no Acre, muda-se para o Rio de Janeiro e, com 15 anos, já cantava e fazia sucesso nas noites cariocas. Artífice da Bossa Nova, o pianista, arranjador e compositor não ficou preso ao gênero de banquinhos e barquinhos, sem nenhuma ofensa. Mas foi tocar jazz nos Estados Unidos.

Nos anos 60, conviveu com Herbie Mann e Wes Montgomery. Retornou ao Brasil em 72 e consolidou sua imagem de músico inquieto. Neste ano, Donato já fez turnê ao Japão e lançou dois CDs um solo e outro com o amigo Bud Shank. Em Parati o pianista mescla sua experiência e juventude com os a Orquestra Imperial evidenciando a harmonia musical dos estilos.

Encontramos mais informações no site da Orquestra

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Simplesmente Artistas

O resultado dos trabalhos desenvolvidos pelas crianças, tais como: exposições de trabalhos, apresentações de teatro, música, oficinas de arte, literatura e um tapete verde para leitura, podem ser vistos na Tenda Azul. O objetivo é difundir a cultura e explorar a pluralidade das expressões artísticas existentes. Como pode ser visto na foto, o lixo que é retirado do mar por pescadores mostra a problemática da falta da consciência ecológica pelas pessoas.

Nos arredores da Tenda Azul, as crianças lêem debaixo dos “pés-de-livros”, árvores com livros pendurados, que resultam da parceria com editoras brasileiras para a ampliação do acervo da Biblioteca Azul, instalada na sede da Associação e que atende a comunidade de Parati. Neste lugar, as crianças ficam entretidas e curiosas com o fato de lerem de um modo diferente e em contato com a natureza.



As crianças no país da FLIPINHA

"Um país se faz com homens e livros".
Monteiro Lobato

Uma das atrações da Festa Literária de Parati é a Flipinha que é um local de encontro das atividades realizadas ao longo do ano pelo Programa Educativo Cirandas de Parati que mobiliza a rede escolar e a comunidade, visando incentivar a leitura e a valorização do patrimônio local.

Segundo o diretor de programação Cassiano Elek Machado, em 2007 a participação das escolas será 30% maior que em 2006, devido às parcerias. Neste ano, a Flipinha foca a preservação do patrimônio material e imaterial da cidade de Parati, por meio dos estudantes, orientados por professores, que colheram informações na comunidade e elegeram bens que inspiraram instalações e apresentações artísticas.

A FLIP como ela foi


A partir de hoje, este blog se encarregará de fazer a cobertura da FLIP, Festa Literária Internacional de Parati que acontece do dia 4 a 8 de julho. Você, que visita o blog neste instante, deve estar se perguntando, mas porque só agora esse cara resolve falar da FLIP?

Assim posto, respondo: o jornalista que fala aqui não dispõe de recursos tecnológicos avançados como um notebook e internet, muito menos tem credencial para o evento. Portanto, o foco da abordagem terá um viés periférico da grande mídia e atentarei para o olhar não só do universo dos escritores, mas das pessoas que colaboram para o sucesso do evento. Desse modo, a pluralidade de acontecimentos e de pessoas será o fio condutor da viagem até tal cidade histórica do Rio de Janeiro.

E por que falar sobre a FLIP? Também digo. Evidenciar a literatura, a escrita, é algo importante em um país de tão poucos leitores assíduos, mostrar a cultura e o prazer por ler para os cidadãos deve ser fundamental não somente por nós jornalistas, mas estimulados por todos os preocupados com a educação, para engendrarmos uma sociedade forte e coesa do ponto de vista intelectual.

O homenageado desta quinta edição da FLIP é Nelson Rodrigues – jornalista, dramaturgo e cronista – que dispensa comentários devido a sua produção ser conhecida pela qualidade e riqueza de sentidos, trabalhando com acuracidade acerca da vida urbana.


“Chegou às redações a notícia da minha morte. E os bons colegas trataram de fazer a notícia. Se é verdade o que de mim disseram os necrológios, com a generosa abundância de todos os necrológios, sou de fato um bom sujeito.”
Nelson Rodrigues
(In: Ruy Castro, extraída do livro "Flor de Obsessão", 1997)

sábado, 23 de junho de 2007

Reforma Política: Um dilema insolucionável


Manifestação contra a corrupção, por mudanças na
política econômica e uma reforma política democrática, na
Esplanada dos Ministérios em Brasília - DF
A reforma política é um tema recorrente na vida política brasileira. Está presente na agenda dos congressistas há vários anos, mas é sempre orientada pelos interesses eleitorais e partidários. Por alguns especialistas é chamada de “casuísmo eleitoral” – geralmente, alteração de curto prazo e de curta duração. Devido a essa terminologia, é que cientistas sociais, antropólogos e outros profissionais, ligados à área dos estudos políticos, acreditam que a maioria dos políticos tem uma concepção de reforma política como apenas reforma do sistema eleitoral.

Essa temática está presente também nas discussões acadêmicas e na mídia. Na academia, mais como um objeto a ser estudado/pesquisado; e na mídia, quase sempre, como a solução de todos os males do país ou é tratada de modo pejorativo. Para uma parte significativa desses autores, é um instrumento para melhorar a governabilidade do Estado (manter as elites no poder) ou aumentar sua eficiência (como atender melhor aos interesses das elites).

Já no âmbito da sociedade civil organizada, das organizações, movimentos, redes, fóruns e articulações que defendem o interesse público - aqui entendido como os interesses da maioria da população, e a radicalização da democracia - a reforma política está inserida em um contexto mais amplo, que necessariamente diz respeito a mudanças no próprio sistema político, na cultura política e no próprio Estado. Dessa forma, os princípios democráticos que devem nortear uma verdadeira reforma política são os da igualdade, da diversidade, da justiça, da liberdade, da participação, da transparência e do controle social.

Em resumo, entendemos como reforma política a reforma do próprio processo de decisão, portanto, a reforma do poder e da forma de exercê-lo. Sendo assim, reforma política ganha olhares e enfoques diferentes de acordo com os interesses de quem a debate e do lugar que ocupa no cenário político e na vida pública.

Acerca da reforma política, a frase do deputado Bonifácio de Andrada demonstra como o assunto é complexo e abrangente na atualidade:


“A reforma política, de acordo com os estudos de direito constitucional, compreende: a organização dos poderes, o que envolve o regime de governo; a estrutura do Estado, que é federação; os sistemas eleitoral e partidário; e, finalmente, um tema moderno, que é a defesa nacional e segurança pública”. [1]


[1] Citação realizada durante a reunião de instalação da Comissão Especial de Reforma Política, no Senado Federal, dia 26 de fevereiro de 2003.

A respeito da reforma, Norberto Bobbio, intelectual italiano, comenta que a população por meio de movimentos democráticos pode se fazer ouvir em situações como as aqui abordadas. Observemos esse argumento abaixo:

“A sobrecarga das demandas da qual derivaria uma das razões da ingovernabilidade das sociedades mais avançadas é uma das características do regime democrático, no qual as pessoas podem se reunir, se associar e se organizar para fazer ouvir a própria voz” (BOBBIO: 1986).


Nesse ensejo referente à reformulação das bases e diretrizes políticas, o professor Wanderley dos Santos afirma, por exemplo, que “revisões, reformas e legislação são sugeridas a título de dotar o nosso sistema político daqueles tributos que seria manco: transparência, eticidade, representatividade e eficácia. Na realidade, porém, a derradeira estação deste atentado institucional seria, ou será, o retorno ao clube oligárquico da competição partidário-eleitoral minimalista”. (SANTOS: 1994). E ainda afirma, o mesmo autor, que tais reformas representam “o mais violento atentado institucional já ousado por civis no último meio século de vida brasileira”. O que representa uma ironia quando relembramos o fato do país ter passado por uma ditadura militar.

Foto tirada em alusão sátira ao episódio de transportes de 100 mil dólares em roupas intimas, realizado por um assessor parlamentar ligado ao partido do governo


Contudo, a reforma política permanece suspensa, aguardando o momento em que será concretizada. O que se espera de fato, é que a sociedade se atente, contribuindo para ampliar a discussão sobre a maneira de organizar a sociedade no âmbito “ético, transparente e justo”. O momento político atual impôs uma pressão de forma que nenhum partido se coloca contrário à reforma. No entanto, resta saber quando e em que nível a reforma política será executada.



Referências Bibliográficas

BORON, Atílio A. Estado, capitalismo e democracia na América Latina. Paz e Terra. São Paulo, 1995.

BOBBIO, Norberto. O Futuro da Democracia: uma defesa das regras do jogo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986.

CUNHA, Sérgio Sérvulo da. O que é o voto distrital. Porto Alegre, 1991.

NICOLAU, Jairo Marconi. Sistema eleitoral e reforma política, Foglio Editora. Rio de Janeiro: 1993.

SANTOS, Wanderley Guilherme dos. Regresso – Máscaras institucionais do liberalismo oligárquico. Ópera Nostra. Rio de Janeiro: 1994.


Webgrafia

http://www.interlegis.gov.br/
Acessado em: 01/05/07